Autor(a)
Iracema Lopes
Escritora, ex-enfermeira
Ex-enfermeira de plantão noturno. Conhece bem as quatro da manhã.
Iracema passou nove anos em plantões noturnos até o próprio sono quebrar — e aprendeu a reconstruí-lo do zero. Escreve sobre as bordas estranhas do sono: paralisia, pesadelo recorrente, o vulto no quarto. Separa o assustador do perigoso, que é quase nada. A enfermagem lhe ensinou triagem, e ela escreve como trabalhava: primeiro avaliar, depois acalmar, explicar por último. Os verbetes de paralisia do sono seguem exatamente essa ordem, porque ela lembra do próprio primeiro episódio — o peso no peito, a certeza de que havia alguém no quarto — e lembra que o que precisava às quatro da manhã não era aula de fisiologia do REM, e sim uma voz firme dizendo: isso é comum, isso passa, isso tem nome. A fisiologia vem depois, com cuidado: o que a pesquisa sustenta, ela escreve; o que não sustenta, ela marca. As figuras do imaginário brasileiro — a pisadeira, o vulto no pé da cama — entram como cultura, contadas com respeito, nunca como ameaça. Guarda um carinho particular por quem trabalha em turno, por mãe de recém-nascido e por todo mundo cujo sono corre contra o relógio; os textos de reconstruir a noite saíram do ano em que ela mesma fez isso, anotando o que funcionava. O tema que atravessa tudo: a noite é estranha, e estranho não é sinônimo de errado. As cartas que mais recebe dizem 'então isso tem nome' — e são, diz ela, o salário do ofício.
Writes about: paralisia do sono, pesadelos, rotinas noturnas.
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