Autor(a)
João Batista Freire
Folclorista
Folclorista. Coleciona superstições de sonho como quem coleciona selos.
João cresceu no interior de Minas, numa casa onde sonhar com dente era notícia séria antes do café. Estudou folclore e escreve sobre como o Brasil lê os sonhos — as simpatias, o livro dos sonhos da banca, a tradição do bicho contada como cultura e história, nunca como palpite. Há mais de quinze anos ele coleta crenças de sonho do jeito que a avó dele colecionava receitas: na fonte, com a história junto. Sabe dizer qual leitura chegou com o colonizador, qual atravessou o Atlântico com os povos escravizados, qual veio da tradição indígena e qual foi inventada por um editor de almanaque com página para encher — e acha as inventadas igualmente reveladoras, porque um povo só guarda as superstições de que precisa. Nos verbetes dele, o folclore nunca é enfeite: cada tradição é tratada como registro do que se temia e se esperava num lugar e num tempo, e é por isso que a mesma cobra pode ser inimigo, aviso ou dinheiro chegando, dependendo de quem dorme. Sobre o jogo do bicho, a régua é firme: ele conta a história — de onde veio, como virou linguagem popular de sonho — e para aí; cultura se registra, aposta não se recomenda. O que ele mais ama são as colisões: a leitora criada entre duas tradições, carregando os dois sentidos na mesma noite. Essas cartas, diz ele, são o ofício inteiro.
Writes about: folclore brasileiro, tradições de sonho, cultura popular.
Elsewhere: joaobfreire.substack.com